Associação Cultural Semearte

A Cia Semearte surgiu em 2013 e se tornou a Associação Sociocultural Semearte em 2021. Qual foi a principal motivação para essa transição e como essa formalização impactou a atuação e os projetos da organização na Rocinha?
O desejo de nos formalizar surgiu após o curso que fizemos com o Instituto Ekloos, em 2020. Através dessa oportunidade, o instituto nos auxiliou na formalização, abrindo novos horizontes e ampliando nossa visão.
Com um CNPJ, a associação passou a estar mais aberta para receber patrocínios e grandes parcerias, que têm potencializado ainda mais o projeto. Tornar-se uma associação trouxe mais visibilidade para a Semearte: conseguimos nos inscrever em mais editais e conquistamos uma identidade reconhecida, que tem impactado positivamente os lugares por onde passamos.

A Semearte oferece aulas gratuitas de teatro, roteiro e interpretação, dança, música, TV e cinema. Poderiam detalhar mais sobre os cursos de TV e cinema? Quais são os principais tópicos abordados e como eles preparam os jovens para o mercado audiovisual?
Nossas atividades são gratuitas. Realizamos seis espetáculos anuais e uma média de oito coreografias por ano. A Oficina de TV e Cinema tem como objetivo preparar nossos alunos que sonham em seguir carreira artística. Promovemos workshops com artistas da área, oferecemos aulas teóricas e práticas, trabalhamos com monólogos e diálogos e, ao final, realizamos uma gravação como resultado do processo. Montamos cenas de novelas, assistimos juntos (com pipoca!) e convidamos as famílias para participarem.
Hoje temos alunos que já atuam em filmes e até um participante na novela das 7, “Dona de Mim”. Inclusive, sou empresária e tenho uma agência na qual alguns dos nossos alunos são agenciados.

A missão da Associação é “resgatar vidas de crianças e adolescentes através da cultura”. Poderiam compartilhar uma história inspiradora ou um caso de sucesso de um aluno que teve sua vida transformada significativamente pela Semearte e que hoje atua no meio artístico ou audiovisual?
Hoje colhemos grandes frutos por meio de histórias de sucesso. Uma delas é a do Pedro Henrique Ferreira, que começou no teatro aos 9 anos. Ele morava ao lado de uma boca de fumo e muitos de seus amigos de infância hoje enfrentam uma triste realidade ligada à criminalidade. Mas Pedro teve o olhar transformado pela arte.
Com as atividades da Semearte, ele passou a sonhar com uma carreira artística. Fez participações em filmes e sempre sonhou em atuar em uma novela da Globo. Em 2024, esse sonho se realizou: assinamos contrato com a Globo, e Pedro interpretou o personagem Lucas na novela das 7, “Dona de Mim” — um jovem resgatado através do esporte. Um papel muito próximo da sua própria história. Um verdadeiro sonho realizado.

Desde 2014, a Semearte realiza indicações de alunos para testes de elenco para novelas, filmes, séries, documentários e publicidade. Como funciona essa ponte entre a Associação e a indústria audiovisual? Quais são os maiores desafios e as maiores recompensas desse processo?
Diante da procura por talentos para o audiovisual, nasceu, em 2018, a Vitrine Produções, uma agência parceira da Semearte. Seu objetivo é tirar sonhos do papel, formar carreiras artísticas e gerar emprego no mercado cultural. Sou responsável pela agência e empresária do Pedro.
Hoje, nossos maiores desafios são as perseguições. Estamos vivendo um grande momento de conquistas, mas também enfrentamos pessoas que tentam desacreditar o nosso trabalho. A recompensa, porém, é perceber que estamos no caminho certo. Quem sabe, um dia, possamos viver financeiramente apenas da arte.
A Rocinha, onde a Semearte está localizada, é a maior comunidade da América Latina. Qual é a importância de levar o acesso à cultura e, especificamente, às artes cênicas e ao audiovisual para jovens em situação de risco social neste contexto?
A Semearte está inserida na maior favela do Brasil, o que nos traz uma enorme responsabilidade: alcançar vidas através da arte.
Mais do que formar artistas, queremos mudar perspectivas. Muitos de nossos alunos se identificam com áreas como mídia, administração e produção. Independentemente do caminho escolhido, ensinamos que é possível fazer a diferença.
O teatro melhora a comunicação, fortalece a identidade e facilita a socialização dos alunos. Temos um momento de acolhimento, com rodas de conversa e escuta ativa. Isso começa a transformar o aluno internamente e, consequentemente, reflete também na família e no ambiente doméstico. Os resultados são visíveis e crescem a cada dia.

O público-alvo da Semearte é bastante diverso em faixas etárias, gênero e raça. Como a Associação aborda a inclusão e a representatividade em suas oficinas e produções, considerando que 45% dos autodeclarados são negros e há uma parcela de participantes transgênero?
Nosso público é bastante diversificado. Por isso, usamos espetáculos e coreografias temáticas para aproximá-los.
Durante os momentos de acolhimento, a roda de conversa promove igualdade e integração. Esse ambiente afetivo nos permite fazer parte da vida das pessoas que atendemos.
A Semearte utiliza espaços como a Biblioteca Parque da Rocinha e teatros profissionais como o Vannucci. Qual a importância desses diferentes espaços para o desenvolvimento dos alunos e para a visibilidade do trabalho da Associação?
A Semearte utiliza a Biblioteca Parque para ensaios e apresentações. Por não termos sede própria, dependemos de agendamentos prévios.
Quando realizamos atividades em locais como o Teatro Vannucci, ganhamos ainda mais visibilidade e profissionalizamos nosso trabalho. Os alunos sempre saem gratos e cheios de esperança.
A visão da Semearte é “ser reconhecida como uma organização cultural que transforma a perspectiva de futuro de crianças e adolescentes em situação de risco social”. Quais são os próximos passos e projetos da Associação para expandir seu impacto e alcançar ainda mais jovens?
Nosso próximo objetivo é realizar ações em prol da construção da nossa sede própria. Com um espaço fixo, teremos mais horários de atendimento e maior liberdade para desenvolver e expor nossas ideias — que, muitas vezes, são limitadas pela falta de estrutura.
A Associação conta com o apoio de diversas entidades. Qual a importância do engajamento de parceiros para a sustentabilidade dos projetos da Semearte, e como outras empresas ou indivíduos interessados podem contribuir?
Atualmente, nossos amigos e parceiros são projetos que nos apoiam pontualmente em eventos ou ações específicas. Ainda não temos um patrocínio fixo que sustente nossas atividades.
Estamos sonhando com novas parcerias e também abertos ao voluntariado. Há diversas formas de contribuir com a Semearte. Nosso desejo é também poder remunerar a equipe que, há 12 anos, doa seu trabalho e talento ao projeto.
Se você quiser potencializar nosso trabalho, plante uma semente de amor e torne-se também um Semearte.
Para finalizar, qual mensagem a presidente Talita Santos e a equipe da Associação Sociocultural Semearte gostariam de deixar para os leitores do Cineplaneta.com.br e para a indústria cultural brasileira sobre o potencial transformador da arte na vida dos jovens?
Neste exato momento, alguém precisa de você.
Faça a diferença na vida de alguém, e Deus fará por você.

