Ao Fotógrafo que me Ensinava Pelo Olhar

Ao Fotógrafo que me Ensinava Pelo Olhar

Há pessoas que passam pela nossa vida como quem atravessa uma rua. Outras passam como quem acende uma janela.

Uma homenagem emocionante a Jorge Sucupira, o fotógrafo que transformou técnica em sentimento e deixou sua luz eternizada através da arte e da memória.

Jorge Sucupira foi uma dessas janelas.

Antes de qualquer técnica, antes de qualquer equipamento, antes de qualquer clique, ele me ensinou uma coisa que talvez seja a mais difícil de aprender na fotografia: olhar não é apenas ver. Olhar é sentir. É perceber o instante antes que ele fuja. É compreender que uma imagem bonita pode até encantar os olhos, mas uma imagem verdadeira atravessa o peito.

O Sucupira era assim. Um fotógrafo de composição singular, de sensibilidade rara, de uma humildade que não precisava se anunciar. Ele tinha um jeito próprio de congelar momentos belíssimos, como se soubesse conversar em silêncio com a luz, com o gesto, com o tempo. Era filósofo com o olhar. Via beleza onde muita gente passava depressa demais para notar.

A nossa parceria nasceu através do CinePlaneta, essa rede que há tantos anos abre caminhos, revela talentos, aproxima pessoas e transforma arte em encontro. E talvez seja por isso que escrever este primeiro texto como colunista aqui tenha, para mim, um peso tão bonito. Porque antes de falar sobre grandes nomes da fotografia mundial, antes de falar sobre mestres consagrados, eu sinto que preciso falar sobre alguém que esteve ao meu lado. Alguém que dividiu comigo eventos, ensaios, casamentos, coberturas, ideias, conversas, sonhos e até projetos que, infelizmente, não chegaram a sair do papel.

Mas nem tudo que não sai do papel deixa de existir.

Algumas coisas ficam guardadas em outro lugar: na memória, na gratidão, no jeito como a gente passa a enxergar o mundo depois de conhecer alguém.

Quando comecei a fotografar ao lado do Sucupira, eu já carregava alguma bagagem. Já tinha minhas referências, meus caminhos, minhas buscas. Mas ele me ensinou detalhes que só se aprende com convivência. Coisas que não cabem em manual. Coisas que não estão na ficha técnica de uma câmera.

Ele me ensinou sobre paciência. Sobre presença. Sobre a importância de respeitar o tempo das pessoas e o tempo da própria imagem. Me ensinou que uma boa foto não nasce apenas do domínio da luz, mas também da escuta. Da delicadeza. Da capacidade de não invadir o momento, mas de se tornar digno dele.

E, talvez sem perceber, ele me ensinou também sobre vida.

Nós tínhamos opiniões diferentes em alguns assuntos. Política, religião, universo, existência… havia temas em que nossos caminhos não seguiam exatamente pela mesma estrada. Mas havia respeito. E esse respeito era uma das coisas mais bonitas da nossa amizade. A gente podia discordar sem diminuir o outro. Podia pensar diferente sem transformar a diferença em muro. Em tempos tão barulhentos, isso era quase uma forma de sabedoria.

Sucupira sabia conversar. Sabia ouvir. Sabia discordar com humanidade.

E isso também é uma forma de arte.

Durante muito tempo, nós caminhamos juntos pela fotografia. Fizemos ensaios, registramos casamentos, cobrimos momentos importantes para o CinePlaneta, acompanhamos jovens talentos, artistas, sonhos em construção. Em cada evento, havia sempre alguma troca. Às vezes uma orientação técnica. Às vezes uma observação sobre enquadramento. Às vezes uma frase simples que ficava ecoando por dentro muito depois de o evento acabar.

Ele não era apenas um parceiro de trabalho. Era um professor sem lousa. Um amigo sem vaidade. Um mestre daqueles que ensinam mais pelo exemplo do que pelo discurso.

E então veio a pandemia.

A Covid levou muitas pessoas queridas. Levou histórias, projetos, abraços, futuros inteiros. Levou também o Jorge Sucupira, depois de uma luta sofrida, dolorosa, injusta. Ele resistiu como pôde. Lutou muito. Mas não conseguiu vencer aquela contaminação que marcou o mundo e deixou tantas famílias com uma cadeira vazia, uma saudade acesa, uma pergunta sem resposta.

Desde então, convivo com duas heranças.

A primeira é o aprendizado. Tudo aquilo que ele me ensinou sobre fotografia, humildade, sentimento, vida e amor pelo ofício.

A segunda é a saudade.

Uma saudade que não grita todos os dias, mas permanece. Uma saudade que aparece quando pego a câmera, quando observo uma composição bonita, quando percebo um instante delicado acontecendo diante de mim. Às vezes, em silêncio, penso: “O Sucupira teria gostado dessa luz.”

E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de permanência.

A pessoa parte, mas o olhar dela continua ensinando a gente.

Se hoje escrevo estas palavras no CinePlaneta, é impossível não lembrar do quanto o Sucupira também contribuiu com essa rede. O Paulo Fernando de Araújo sempre faz menção a ele com carinho, e não poderia ser diferente. Porque algumas pessoas não deixam apenas lembranças; deixam marca. Deixam caminho. Deixam luz acesa para quem vem depois.

O CinePlaneta tem uma estrela em sua identidade. E eu não consigo pensar em símbolo melhor para falar do Jorge.

Porque ele também virou estrela.

Não no sentido distante, inalcançável, frio. Mas no sentido mais bonito: uma estrela como referência. Como ponto de orientação. Como brilho que atravessa a noite e lembra que algumas presenças continuam existindo mesmo quando já não podemos tocá-las.

Jorge Sucupira clareou muitas coisas na minha mente. Iluminou minha trajetória. Me ensinou que fotografar não é apenas apertar um botão, mas honrar um instante. Me ensinou que humildade não diminui ninguém; pelo contrário, amplia. Me ensinou que a beleza pode estar num gesto discreto, numa luz lateral, num rosto concentrado, numa criança sorrindo, num artista antes de entrar em cena, num casal atravessando um dia inesquecível.

Ele me ensinou que a fotografia é memória, mas também é afeto.

Por isso, este primeiro texto não poderia começar de outro jeito.

Antes de falar sobre Sebastião Salgado, sobre os grandes mestres, sobre estética, técnica, linguagem ou história da fotografia, eu precisava falar sobre o amigo que esteve comigo no chão dos eventos, no calor das coberturas, na construção silenciosa do olhar.

Este texto é uma homenagem.

Ao parceiro.
Ao professor.
Ao fotógrafo.
Ao filósofo do olhar.
Ao amigo.

Obrigado, Jorge Sucupira, por tudo que você me ensinou.

Hoje, cada vez que eu levanto uma câmera em busca de um instante verdadeiro, existe um pouco da sua luz ali.

E enquanto houver memória, fotografia e gratidão, você continuará brilhando.

Como uma estrela.

Bill Vianna
Fotógrafo e colunista do CinePlaneta
https://instagram.com/billvianna

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Discover

Sponsor

  • Paixão Câmeras

Latest

Supertramp Experience no Qualistage: Homenagem a Rick Davies em 25 de abril

Supertramp Experience no Qualistage: Homenagem a Rick Davies em 25 de abrilSupertramp Experience chega ao Qualistage no Rio de Janeiro para uma noite inesquecível...

Doppler Venoso Solidário oferece exames gratuitos no Rio de Janeiro neste sábado

Doppler Venoso Solidário oferece exames gratuitos no Rio de Janeiro para pacientes do SUS Uma iniciativa que pode transformar vidas chega ao Rio de Janeiro...

Muca e Roberto Menescal lançam “Beleza” – Novo álbum 2026

Muca e Roberto Menescal lançam álbum “Beleza” e conectam gerações da música brasileira Muca e Roberto Menescal lançam o aguardado álbum “Beleza”, um projeto que...

Fred Izak apresenta o espetáculo “Lírico” no Rio de Janeiro

Fred Izak apresenta o espetáculo “Lírico” no Rio de Janeiro O cantor, compositor e letrista Fred Izak chega ao Rio de Janeiro com o espetáculo...

The Fevers celebram 60 anos de sucesso com turnê em Fortaleza no Teatro Riomar

The Fevers Celebram 60 Anos de Sucesso com Turnê em Fortaleza no Teatro Riomar A banda ícone da Jovem Guarda chega a Fortaleza para uma...